4 de abr de 2015

AFIRMAÇÃO

globoesporte.globo.com          Foto: Richard Souza
O que dizer de um profissional que já tem 29 anos de carreira? O que dizer de uma pessoa que atingiu seus 55 anos de idade? Pode-se alegar tudo, menos falta de experiência. Ricardo Drubscky tem tudo isso e mais um punhado de clubes em sua trajetória profissional. Passou por inúmeras situações no futebol e, seguramente, já experimentou vários sabores: dos amargos até os doces.
Ainda assim, Drubscky não esconde a ansiedade nas horas que antecedem seu primeiro Fla x Flu. Além da mística que envolve esse jogo, considerado patrimônio do Rio de Janeiro, o que por si só já seria motivo suficiente para justificar a inquietação, há uma outra razão que aflige Ricardo. O treinador tem, já em fase adiantada de sua carreira, a maior chance de sua vida. Antes do Fluminense, ele não comandou nenhum clube de peso no cenário nacional. Este é o primeiro jogo importante que participa na condição de protagonista. Haverá muitos olhares para o banco de reservas, mesmo com os artilheiros Marcelo Cirino e Fred em campo. A ausência de Luxemburgo aumenta ainda mais o protagonismo de Ricardo.
Drubscky é a novidade e representa, mesmo aos 55 anos, uma possibilidade de inovação. O futebol brasileiro está muitíssimo carente de novas mentes. O treinador do Fluminense tem um discurso diferente, embora um tanto confuso em alguns momentos. Mas logo se percebe, ao ouví-lo falar, que se trata de alguém que se preparou para exercer sua função. Tem preocupações extra-campo. Pensa o no futebol de forma macro. Sabe que há muto mais do que as quatro linhas e que, hoje em dia, diversos fatores concorrem para um bom desempenho de uma equipe.
Se o treinador vai fazer sucesso aqui, só o tempo dirá. Todos sabem como funciona o futebol e resultados ruins porão em risco seu trabalho. Ao contrário, se vencer o Fla x Flu, será considerado o supra sumo entre os técnicos de futebol. Ricardo parece saber disso e, por isso, entende o peso de sua função.
Nas duas vitórias que conquistou sob o comando do novo treinador, o Fluminense apresentou uma característica de jogo ofensiva, mas desarrumado na defesa. Contra a Cabofriense venceu por 3 x 0, mas passou alguns sustos. Diante do Barra Mansa vitória por 4 x 2, porém com extraordinária atuação de Diego Cavalieri. Deu para passar diante de equipes mais fracas. No Fla x Flu, o tricolor terá pela frente um adversário em iguais condições e a ameaça de ser duramente golpeado. 
Independente do resultado no clássico não se poderá fazer julgamentos do trabalho de Drubscky. Até mesmo para os profissionais de imprensa fica difícil avaliá-lo. Ricardo é uma espécie de treinador fantasma. Esteve no futebol nos últimos 30 anos, todos já ouviram falar sobre ele e ninguém o conhece muito bem. Por isso mesmo, deposito nele a esperança de algo diferente.
Drubscky já publicou um livro no qual pensa a prática do futebol (Universo Tático do Futebol- Escola Brasileira, 2003). Nele, propõe alternativas para a reestruturação desse esporte no Brasil. Demonstra profundo conhecimento, mas não fala apenas como acadêmico. Alia a formação na Universidade Federal de Minas Gerais com os anos de prática. Tem uma visão bastante ampla de como as coisas funcionam à beira do gramado e também nos bastidores. Ricardo já exerceu cargo de gerenciamento. 
Estamos acostumados a olhar para o placar e não para o processo. O objetivo a curto prazo é vencer. Essa meta pode até ser alcançada rapidamente, mas sempre será efêmera caso não haja um trabalho sólido por trás. Muito por conta dessa mentalidade rasteira é que paralisamos em termos de gestão de clubes, táticas de jogo e preparação física, enquanto países como Japão e Estados Unidos avançaram absurdamente. 
A desconfiança do torcedor se justifica pela falta de resultados do profissional. A lógica das arquibancadas se mistura a dos formadores de opinião. Para a torcida, de forma geral, o que vale é vitória. Para Ricardo Drubscky, o êxito no clássico é uma forma de obter a benção dos tricolores e o aval dos críticos, mesmo que temporariamente.

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