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24 de mai. de 2016

DE BANDEIRA A CAETANO: O FUTEBOL DO FLA NÃO MUDA

Se Eduardo Bandeira de Mello desistiu de chefiar a delegação da CBF nos Estados Unidos é porque, seguramente, decisões importantes se avizinham na Gávea. O clima político ferve no Flamengo. Há alguns postulantes ao cargo de Rodrigo Caetano. O Diretor permaneceu, mas sua alma já está encomendada faz tempo. Bastam novas derrotas para tudo mudar outra vez.
A desistência de Bandeira foi uma decisão política. Ele não pode largar seu posto nesse momento de indefinições, sob pena de se enfraquecer ainda mais dentro do Flamengo. Por outro lado, o Presidente deixa escapar uma ótima oportunidade de reatar laços políticos importantes na CBF. Se sua relação com a Federação Carioca é muito ruim, ainda havia alguma esperança de se salvar na Confederação. Por isso, Eduardo vai marcar presença na partida de estreia da Seleção na Copa América, dia 4 de junho, na Califórnia, contra o Equador. É uma maneira de demarcar território, de demonstrar as intenções.
O mandatário rubro-negro vive assim: entre a cruz e a espada. De um lado, faz uma das melhores administrações financeiras que o clube já viveu. Por outro, demonstra total inabilidade política para conduzir os rumos do futebol. Ele não tem essa veia da malandragem, tão cara aos administradores da bola. Vai ficar marcado como o presidente fracassado porque não ganhou muitos títulos. Essa é a dura realidade do mundo do futebol.
Toda essa crise conjuntural que vive o futebol do Flamengo passa pelo esvaziamento de Rodrigo Caetano. Ele é figura central dos embates entre correligionários de Eduardo Bandeira. Caetano é centralizador. Tem uma maneira muito abrangente de administrar as coisas. O dirigente tem tentáculos em muitos setores e isso, seguramente, incomoda.
Caetano está mantido. Entretanto, o Flamengo busca um nome para co-gerir o departamento de futebol. Alguém que possa fazer uma sombra, por assim dizer, a Rodrigo. A decisão, bancada por Bandeira de Mello, é uma clara tentativa de agregar gregos e troianos. Pretende o Presidente, com isso, apaziguar os ânimos nos bastidores rubro-negros.
Contudo, a manobra acaba por fragilizar ainda mais Rodrigo Caetano. Se o time continuar perdendo, mesmo com a chegada de mais um dirigente, a culpa será do antigo gestor. Se o Flamengo começar a vencer, será mérito de quem chegou, e não de quem já estava.


14 de out. de 2015

JOGO DURO

Wikipedia.org
A FIFA é um imenso buraco negro. Após a renúncia de Joseph Blatter, os escândalos e o recente afastamento de Michel Platini por suspeita de corrupção um vácuo profundo tomou conta da instituição máxima do futebol mundial.
Em todos os casos de alternância de poder, seja lá de qual esfera estejamos tratando, sempre que há um vazio de esperança, o novo sempre ganha força pelo simples fato de ser novidade. Nessa esteira é que caminha a candidatura de Zico. O Galinho aposta na desesperança para alavancar sua candidatura.
É claro que as eleições da FIFA têm um caráter especial. Não costuma ser um pleito que leva em consideração o clamor popular. Apesar do futebol ser o esporte mais popular do mundo, a cartolagem jamais abriu a instituição. Nesse sentido, a FIFA é também uma caixa preta.
Zico tem muito conhecimento do mundo do futebol como negócio. Está a frente de um clube há muitos anos e faz negócios com o futebol oriental. Atuou como dirigente do Flamengo em 2010 por apenas 4 meses e não se pode dizer que foi bem sucedido. Como Ministro dos Esportes, durante o governo Collor, não realizou nenhuma melhoria significativa ao ponto de ser lembrado. 
A maior dificuldade de Zico é conseguir as 5 assinaturas de federações nacionais necessárias para confirmar sua candidatura. Até 26 de outubro, o ex-jogador precisa convencer dirigentes de que seu nome é o mais indicado para o cargo de presidente da FIFA.
Além de Zico, há outros pré-candidatos mais influentes. Platini está há anos à frente da UEFA, o que lhe dá gabarito. Seu maior problema é conseguir se livrar das recentes denúncias. O coreano Chung Mong-Joon também surge como um candidato forte por ser presidente da Hyundai. Seu impeditivo é parecido com o de Platini. Mong-Joon está afastado preventivamente da FIFA por denúncias de corrupção.
O grande favorito é o príncipe da Jordânia, Ali Bin Al-Hussein. Derrotado por Blatter nas últimas eleições, Al-Hussein conquistou notoriedade. É o nome favorito dos EUA para ocupar o cargo. Os norte-americanos tem interesse direto no processo eleitoral, pois o futebol é o esporte que mais cresce por lá. Há um mercado enorme à espera. 
EUA e Jordânia mantém relações amistosas. Há interesses comerciais e estratégicos envolvendo os países. Ter um presidente jordaniano na FIFA pode ser interessante para ambos. 
Não por acaso, os EUA promoveram todas as prisões recentes no mundo do futebol. A ideia é desestabilizar o poder estabelecido há décadas e deixar caminho livre para Al-Hussein.
Zico é o azarão. Até mesmo o Galinho sabe que não é seu momento ainda. Entra na briga para ganhar visibilidade e voltar mais forte em outra ocasião. A vez é do príncipe da Jordânia. Política não é para ingênuos. Zico sabe disso.

3 de out. de 2015

AS ENGRENAGENS DA BOLA

Está em processo de elaboração um novo torneio de futebol que pretende englobar as Américas: do sul, central e do norte. A competição, batizada de America Champions League, é um projeto ousado que prevê a participação de 64 clubes em 9 meses de disputa. No Brasil, São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Flamengo, Vasco e Cruzeiro já receberam convite. A intenção dos idealizadores é que a Liga dos Campeões das Américas tenha início em 2017. Eles anunciam premiações estratosféricas, números de fazer inveja: R$ 20 milhões para cada clube participante, R$ 118 milhões em premiações e um total de R$ 2 bilhões em movimentações financeiras. 
Por trás da empreitada, um mega empresário de comunicação: Riccardo Silva. O Italiano é dono MP&Silva, empresa que detém os direitos de transmissão de quase todas as ligas europeias, sul-americanas, copa do mundo, NBA, entre outras competições. Riccardo, além disso, é dono do Miami FC, clube que joga a liga que mais cresce financeiramente em todo o mundo. A criação da America Champions League seria, sem dúvida, um tiro certeiro para as pretensões do empresário, qual seja: impulsionar o futebol nos Estados Unidos e alavancar seus lucros.
Um dos maiores incentivadores da investida de Riccardo é Marcelo Tinelli, astro da televisão da argentina e candidato às eleições de março de 2016 da AFA. Tinelli é apresentador de um show de entretenimento e acumula a sua função com o cargo de vice-presidente do San Lorenzo. Uma salada complexa e suspeita. É no mínimo estranho que um dirigente de clube seja presidente da federação.
Tinelli vê com bons olhos a criação da novo liga porque pretende minar as forças da Conmebol. A combalida instituição seria o desejo do pop star hermano. A entidade sul-americana perderia muito com a criação da America Champions League, afinal a sua principal competição, a Libertadores, sofreria uma grande desvalorização de mercado.
A Conmebol não vive seus melhores dias. Vem sendo investigada pelo não repasse de 54% de US$ 265 milhões referentes a premiações da Sul-Americana e Libertadores entre 2010 e 2013. Não há melhor momento para a investida de Riccardo e Tinelli. É o que se convém dizer: unir o útil ao agradável. 
Por parte dos brasileiros convidados, duas preocupações: o calendário apertado de jogos e não ferir os interesses. Ninguém quer participar de um torneio sem o consentimento de CBF, Conmebol e FIFA. A grana é tentadora mas, por enquanto, tudo não passa de um punhado de ideias que tem por trás gente graúda. Embarcar nessa, pelo menos agora, é um tanto arriscado.

27 de abr. de 2015

OS MÉRITOS DE ASSIS

esporte.ig.com.br
Sempre que Ronaldinho Gaúcho se desliga de um clube, seu nome surge em diversos times no Brasil. Desde que deixou o México, depois de uma passagem pífia pelo Querétaro, o meia já foi especulado pelo Vasco e, agora, pelo Cruzeiro. É só o início da festa. Muitos outras possibilidades vêm por aí.
O que faz deste jogador especial? Ronaldinho já não e mais aquele há muito tempo. Então, porquê está sempre sendo especulado? De onde partem essas notícias? A quem interessa que sejam publicadas? 
No futebol, as coisas funcionam de uma maneira muito especial. A coisa é similar a uma bolsa de valores. As especulações comandam as ações. Se soltam uma informação que uma empresa tal teve seus diretores demitidos, aí os valores despencam. Assim é no esporte bretão. É preciso que se ventile o nome de um determinado atleta, muitas vezes e em diversos clubes, até que seu valor seja reaquecido no mercado.
A imprensa serve como meio para esse tipo de manipulação. Através dela a informação vai ganhando força até ganhar o status de verdade absoluta. Ao mesmo tempo, ela mesma (a imprensa), se nutre dessas especulações porque obedece a uma lógica mercantilista que se retroalimenta. A coisa funciona assim: o empresário planta a notícia no veículo de imprensa que, imediatamente, a divulga. O dirigente nega a notícia e o empresário também. Mas o que está escrito é já ganhou a rede não volta mais. Mesmo sendo publicadas as negativas do empresário e do dirigente, o que vale é a possibilidade do craque vestir a camisa de tal clube. No fim, ganham todos: empresário, imprensa e clube.
Assis, irmão e empresário de Ronaldinho, trabalha de forma muito eficiente. Ex-jogador, conhece bem os bastidores da bola. Quando seu irmão veio para o Flamengo, houve muita especulação sobre seu destino. Ao sair da Gávea para o Atlético-MG, também apareceram alternativas. Sua saída do Galo para o futebol mexicano teve escala no Palmeiras. Com o Verdão, Assis cozinhou a negociação até o fim. Todas as exigências foram atendidas pelo clube que esperava, no ano de seu centenário, presentear seu torcedor. No fim, uma frustração tamanho família e Ronaldinho embarcando para jogar no Querétaro por uma valor acima do esperado. Ou seja, o Palmeiras foi usado como meio para um contrato mais consistente com os mexicanos. E o que é mais assustador: o Alviverde voltou a ser especulado como uma das possibilidades nessa volta de Ronaldinho ao Brasil!
Ronaldinho Gaúcho apresenta um histórico recente que não inspira muita confiança. Depois do Barcelona, clube que deixou em 2008 e pelo qual viveu suas maiores glórias, o meia não teve boas passagens por Milan e Flamengo. Funcionou muito bem pelo Atlético-MG, em um time absolutamente encaixado pelo brilhante Cuca. Foi um período de seis anos, desde sua saída da Catalunha até a chegada a Belo Horizonte. No Galo, foram dois anos de clube e cerca de 1 ano e meio de bom nível técnico. No México, uma passagem pífia: apenas 21 jogos e algumas confusões. Muito pouco para que se justifiquem os supostos interesses pelo jogador. Ainda assim, haverá muitos. Todos por mérito de Assis.

3 de abr. de 2015

ANACRONISMOS

lancenet.com.br        Foto: Cléber Mendes
Luxemburgo não começou ontem. Para seu azar, tem um passado. Sua história tem passagens mal explicadas, declarações infelizes e atitudes descabidas. Desde cheque sem fundo até acusação de assédio, muita coisa gira em torno do nome de Vanderlei. Todos precisam carregar alguma cruz.
No entanto, a vida pretérita do treinador não desqualifica suas reivindicações. Tampouco, justifica a coerção exercida pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. Luxemburgo não incitou, em momento algum, a violência. Fez uso, através de um vocabulário bastante chulo, marca registrada do técnico, de um termo bastante corriqueiro no dia a dia: "porrada". Apesar do significado literal da palavra estar associado à luta, ela tem muitas outras possibilidades. No caso de Luxa, foi claramente uma alusão ao ato de criticar. A Federação não entendeu dessa maneira.
O artigo 133, do regulamento geral de competições da FFERJ, determina que no caso de jogador ou membro de comissão técnica se manifestar contrário ao campeonato, o clube ao qual pertence o profissional será multado em cinquenta mil reais. Conhecido como Lei da Mordaça, o artigo, aprovado pelos clubes em conselho arbitral, foi considerado inconstitucional pela Justiça do Rio de Janeiro. De acordo com a Defensoria Pública, ela fere o direito de liberdade de expressão.
O artigo foi vetado na justiça comum, mas segue em alta no TJD. O tribunal, ligado a Federação, toma suas decisões de acordo com os interesses da mesma. É pública e notória a desavença entre a dupla Fla-Flu e a entidade. Ficou claro que a FFERJ apenas esperou um pequeníssimo deslize para punir o Flamengo. Não pôde aplicar punição pecuniária, mas achou brecha para suspender seu treinador.
O STJD, tribunal ligado a CBF, também rejeitou pedido de efeito suspensivo da punição de dois jogos imposta a Vanderlei. Mas houve aqui motivo bem explicitado pelo presidente Caio Rocha. Segundo o magistrado, o que se visou foi não passar por cima de ritos que devem ser respeitados. Nesse caso, o processo deve ser primeiramente julgado pelo pleno do TJD. Excedida essa instância, aí sim o STJD entra em cena. 
Vanderlei será inocentado, não tenho dúvida. Não fazê-lo significaria se posicionar a favor de uma postura ditatorial que não condiz mais com os tempos atuais. Embora haja alguns anacronismos, como Eurico Miranda e Rubens Lopes, a história caminhou rumo ao desenvolvimento democrático. Luxemburgo apenas manifestou-se contrário ao regulamento do Campeonato Estadual que, ao limitar inscrição de atletas, prejudica, na opinião do treinador, a evolução do futebol. O que há de tão ruim nisso? O que há de tão criminoso em dar "porrada" no regulamento e, por conseguinte, na Federação?
Não há inocentes no futebol. Luxemburgo não é o arauto da moralidade, assim como não são exemplos de conduta os dirigentes de clubes de forma geral. Todos têm parcela de culpa nesse monstro que se tornou o futebol brasileiro, um exemplo muito bem acabado do que nossas instituições se tornaram. O perigo aqui é o descrédito absoluto nas organizações oficiais. A exemplo do que acontece em outros segmentos, o futebol está correndo risco de se tornar acéfalo. A partir daí, não há previsão possível para o futuro do esporte organizado.